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Entre erros e acertos, o que importou foi o retorno do Festival Bananada

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Após sete anos longe do calendário, festival voltou a ocupar Goiânia e reencontrou o Centro Cultural Oscar Niemeyer com uma programação que confirmou sua força como ponto de encontro da música brasileira


Por Anajú Tolentino, para a Vivendo de Shows.


Créditos: Divulgação
Créditos: Divulgação

Sete anos são tempo suficiente para um festival deixar de ser compromisso anual e virar memória. No caso do Bananada, talvez esse intervalo tenha servido também para dimensionar o tamanho do espaço que ele deixou vazio. 


Entre 18 e 23 de agosto, o festival voltou a acontecer em Goiânia e, mais importante do que simplesmente retomar uma programação interrompida em 2019, devolveu à cidade uma dinâmica que durante muito tempo pareceu natural: gente do Brasil inteiro circulando entre shows, artistas assistindo a outros artistas, encontros improváveis e a sensação de que, por alguns dias, parte significativa da música brasileira resolveu se encontrar no meio da seca do Cerrado.


A retomada aconteceu de forma espalhada. Durante a semana, casas como Martim Cererê, Shiva Alt-Bar, Monkey, Zona Pub, Zé Latinhas e Salve! receberam parte da programação. De sexta-feira a domingo, porém, o Bananada ganhou novamente escala de festival com a Arena Bananada, montada no Centro Cultural Oscar Niemeyer.


O retorno ao CCON também tinha seu próprio peso simbólico. O conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer não servia de cenário para os três dias principais do festival havia quase uma década. Para quem acompanhou outras fases do Bananada, rever aquelas linhas enormes de concreto como backdrop dos palcos era também reconhecer uma imagem profundamente associada à história do evento. Mas o Bananada de 2026 não tentou simplesmente remontar o festival que existia antes da pausa, e foi aí que aconteceram os seus acertos e algumas de suas ausências.


Ao redor do Oscar Niemeyer, três palcos concentraram uma programação extensa, diversa e, em alguns momentos, quase simultânea. A gente sabe bem que, quando se trata de um festival de música, é preciso abdicar de algumas atrações ou até vê-las pela metade. Uma consequência inevitável de um line-up grande, mas que ficou especialmente evidente em uma edição cujo principal argumento era justamente a quantidade de coisas interessantes acontecendo ao mesmo tempo.


Se edições anteriores transformavam a arena em um pequeno universo paralelo, com intervenções, até campeonatos (de ballroom ou de gaymada), lojas e diferentes ativações, desta vez essa experiência foi consideravelmente mais enxuta. A escalada era praticamente a única grande atividade fora dos palcos. Para um festival que historicamente flertou com a ideia de extrapolar o formato tradicional de shows, fez falta encontrar mais coisas acontecendo entre uma apresentação e outra.


Em compensação, uma escolha ajudou a devolver personalidade ao espaço: a praça de alimentação foi essencialmente ocupada por bares, cafés e lanchonetes de Goiânia. Em vez da sensação genérica de praça gastronômica que acompanha boa parte dos grandes festivais, havia ali uma extensão da própria cidade. Era um detalhe, mas um daqueles que ajudam a explicar por que o Bananada funciona melhor quando se entende como parte de Goiânia, e não apenas como um evento realizado nela. No fim das contas, contudo, seu maior argumento continuou sendo o mesmo de sempre: a música, o campo cujo retorno pareceu mais seguro.


O Bananada sempre encontrou parte de sua identidade na convivência entre artistas estabelecidos e nomes ainda circulando abaixo do radar. Em 2026, essa característica ficou evidente ao colocar no mesmo fim de semana Arnaldo Antunes, Gaby Amarantos e BaianaSystem, ao mesmo tempo em que abria espaço para descobertas como Vera Fischer Era Clubber, Jonabug e até outros artistas que chegaram ao festival por meio do Circuito Nova Música ou pela curadoria própria de Fabrício Nobre.


A diferença de escala entre esses shows não diminuía sua importância. Poder atravessar alguns metros e sair de uma apresentação gigantesca para descobrir uma banda que até então não fazia parte do seu radar sempre foi um dos prazeres particulares do Bananada. 

Saí de Brasília tendo a certeza que alguns desses encontros justificaram sozinhos a viagem. Gaby Amarantos fez um dos grandes shows do fim de semana. Há algo especialmente adequado em vê-la apresentar Rock Doido dentro de um festival como o Bananada: um disco interessado em atravessar fronteiras entre guitarras, aparelhagem, pop, tecnobrega e música eletrônica diante de um público que também parecia pouco preocupado em obedecer às divisões tradicionais de gênero.


Sua apresentação foi uma afirmação daquilo que um festival independente ainda pode colocar em circulação. Gaby falou sobre o trabalho coletivo por trás do álbum, sobre independência e sobre a importância de um público disposto a carregar aquele som para além dali. Pouco depois, celebrou estar fazendo seu primeiro show no Bananada justamente na edição que marcava o retorno do evento.



Outra iconicidade foi presença de Arnaldo Antunes que, depois de décadas de carreira, também fora sua primeira apresentação no festival, apesar de ele próprio dizer que desejava tocar ali havia muitos anos. Era curioso perceber como o Bananada conseguia, no mesmo retorno, realizar um encontro atrasado com um artista fundamental da música brasileira e continuar apostando em nomes que boa parte daquele público estava conhecendo naquele fim de semana.


Essa elasticidade geracional ajudou a construir alguns dos melhores momentos da Arena. No domingo, ela desembocou em Don L e no BaianaSystem, que tratou o encerramento menos como conclusão e mais como combustão. Se existia alguma dúvida sobre quanto público ainda reconheceria o Bananada como território depois de sete anos, bastava olhar ao redor durante aqueles shows.


Mas algumas das melhores histórias estavam justamente fora do centro da escalação. A Vera Fischer Era Clubber foi uma dessas surpresas que fazem um festival funcionar como ferramenta de descoberta. O mesmo aconteceu com a Jonabug, integrante do Circuito Nova Música, que me atraiu a atenção.


Em um mercado de festivais cada vez mais dependente dos mesmos artistas circulando pelos mesmos cartazes, reservar espaço para esses desvios é parte do que ainda justifica uma curadoria.


Porque talvez essa seja a pergunta que o Bananada precise continuar respondendo em suas próximas edições: o que ele oferece que nenhum outro festival oferece? Em 2026, a resposta é óbvia: estava no público que atravessou estados para chegar a Goiânia, nos músicos encontrados no meio da plateia assistindo a outros músicos, na mistura de gerações e regiões do país. Afinal, depois de anos em hiato, pessoas se tornaram pais e pôde, finalmente, levar o próprio filho pra ver a banda que ama. 



 Na possibilidade de ver um nome enorme e, 40 minutos depois, sair comentando sobre uma banda que você sequer conhecia antes de entrar ali, inclusive nas madrugadas adentro que também ajudavam a contar essa história.


Nos dois últimos dias, depois que as bandas deixaram os palcos, o festival ainda encontrou energia para continuar na pista. Primeiro com o goiano DJ Tubas e, no encerramento, com mu540 em B2B com o indiano Bamboy, levando a última noite para um terreno de funk e música eletrônica que parecia uma conclusão bastante coerente para um evento construído em torno de encontros.


De fato não foi a maior edição do Bananada e nem precisava ser. A comparação com o passado é inevitável porque foram sete anos sem novas memórias para ocupar o lugar das antigas. Quem esteve nas edições do Oscar Niemeyer na década passada lembra de um festival mais espalhado, cheio de pequenas distrações, intervenções e coisas acontecendo para além do line-up. Quem acompanhou suas últimas edições antes da pausa também sabe que o Bananada nunca foi imune a atrasos, conflitos de horário ou escolhas estruturais questionáveis.


Nesse final de semana, houve momentos em que três bons shows pareciam disputar o mesmo público. Houve espaços que poderiam ter sido melhor aproveitados. Houve uma sensação de que a experiência para além da música ainda pode crescer bastante caso as próximas edições realmente aconteçam, mas houve também algo que sete anos sem Bananada tornaram muito mais fácil de perceber.


Poucos festivais brasileiros conseguiram construir uma relação tão particular entre cidade, cena e público. Durante anos, o Bananada foi um lugar em que pessoas da música independente sabiam que acabariam se encontrando, mesmo sem combinar. Essa dimensão não cabe numa grade de horários e dificilmente aparece no cartaz.


No fim de domingo, quando o último grave desapareceu no imenso vazio ao redor do Centro Cultural Oscar Niemeyer, o principal saldo desse último final de semana foi o pensamento de um Bananada diferente, menos ambicioso, mas buscando a forma ideal para esta nova fase e com espaço suficiente para corrigir seus próprios erros. Já estamos no aguardo de 2027.


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