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Uma homenagem campeã: o triunfo da Viradouro ao reverenciar Mestre Ciça

  • há 2 horas
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Com um desfile emocionante, técnico e arrebatador, a Unidos do Viradouro conquistou o Carnaval 2026 ao transformar a Marquês de Sapucaí em um grande tributo à história de um dos maiores nomes da bateria do Carnaval: Mestre Ciça


por Letícia Pinheiro, para Vivendo de Carnaval


Foto: Tata Barreto/Riotur
Foto: Tata Barreto/Riotur

"O Samba venceu". Essa frase consegue traduzir um acerto de contas com a própria história não só da VIradouro mas também com o samba e em todas as escolas de samba. E o resultado veio na ponta do lápis: campeã do Carnaval 2026.

No centro de tudo estava ele, o "simpático senhor", Mestre Ciça.

Quem é Mestre Ciça?

Nascido Moacyr da Silva Pinto, Ciça, comandou a bateria do GRES Estácio de Sá entre 1988 e 1997, período formador tanto para ele quanto para a consolidação do seu método: ensaio intenso, disciplina de naipe e construção de cadência sólida. Em 1998, assumiu como diretor de bateria da Unidos da Tijuca, ampliando sua circulação no Grupo Especial.



De 1999 a 2009, viveu um dos ciclos mais marcantes na Unidos do Viradouro. Foi ali que ganhou projeção por propostas ousadas, como no Carnaval de 2007, quando a bateria desfilou até o recuo sobre um carro alegórico — uma solução cênica que dividiu opiniões, mas evidenciou seu perfil inovador. Nesse período, também teve atuação política interna, apoiando a gestão do então presidente Marco Lira, mostrando que sua influência extrapolava o apito.


Em 2010, passou a dirigir a bateria da Acadêmicos do Grande Rio. Lá, apresentou aquela que ficou conhecida como a paradinha mais longa da Sapucaí até então — um risco calculado que virou assunto no pós-desfile. Permaneceu até o Carnaval de 2014.



Sem ficar fora da avenida, em 2015 assumiu a bateria da União da Ilha do Governador. O resultado foi direto: nota máxima no quesito em 2016, 2017 e 2018. Em 2017, sob seu comando, a bateria da Ilha conquistou o Estandarte de Ouro de melhor bateria — feito que a escola não alcançava havia 28 anos. Foi o reconhecimento crítico de um trabalho técnico consistente.


Em 2019, Ciça retornou à Viradouro após um hiato de dez anos. A volta marcou o início de um novo ciclo vitorioso: campeão em 2020 e 2024, consolidando a bateria como uma das mais estáveis do Grupo Especial.


Em 2026, a escola decidiu transformar sua trajetória em enredo — movimento arriscado por tratar-se de um personagem contemporâneo — e o resultado foi simbólico: título conquistado com o próprio mestre como eixo narrativo do desfile.


A trajetória de Ciça revela algo além de inovação pontual. Mostra longevidade competitiva. Poucos mestres atravessam décadas mantendo protagonismo técnico, capacidade de adaptação ao julgamento e regularidade de notas. No Carnaval, isso vale tanto quanto qualquer paradinha histórica.

O enredo: quando a escola olha para dentro

Homenagear alguém em atividade é sempre ousado. Mas a Viradouro fez mais: construiu uma narrativa que cruzava a biografia de Ciça com a própria evolução da bateria no Carnaval moderno. A comissão de frente já dava o tom: a regência como metáfora de liderança. Os setores seguintes mergulhavam na formação do mestre, na ancestralidade do ritmo, na disciplina que sustenta uma bateria nota 10. 40, na verdade.

A escolha do samba: técnica e emoção na medida

O samba-enredo foi construído com inteligência. Letra biográfica sem ser didática demais. Exaltação sem cair no óbvio. Refrão forte, fácil de cantar, mas com riqueza melódica. A obra equilibrava emoção e cadência — o que é essencial quando o homenageado é justamente o mestre do ritmo. A bateria teve espaço para brilhar, mas o samba sustentava a narrativa com firmeza.

Era daqueles sambas que crescem na avenida. E cresceu.

O desfile que ganhou na emoção

A Unidos do Viradouro veio redonda. Evolução fluida, harmonia segura, fantasias bem resolvidas e alegorias com leitura direta — sem excesso de informação visual, sem buraco narrativo. O diferencial esteve no conjunto: a escola sabia o que estava contando e como queria contar. Nada sobrando. Nada faltando.

A bateria, naturalmente, assumiu protagonismo. Afinação consistente, bossas inseridas com critério e paradinhas colocadas em pontos estratégicos do samba — especialmente na transição para o refrão principal. Mas o desfile ganhou outra dimensão em dois momentos simbólicos.

Um deles foi o carro que reuniu mestres de bateria de diferentes agremiações do Grupo Especial. A presença coletiva, todos visivelmente emocionados, funcionou como reconhecimento público da trajetória de Ciça no próprio meio. Carnaval também é disputa, mas é memória e respeito entre pares. E aquilo ali tinha peso histórico.

O outro momento foi a retomada da imagem que marcou 2007: a bateria novamente posicionada sobre o carro alegórico. A referência ao desfile icônico da própria Viradouro não foi gratuita; foi uma escolha consciente de diálogo com a memória da escola e com um dos capítulos mais comentados da carreira do mestre.


O carinho da rainha


A volta de Juliana Paes à Unidos do Viradouro em 2026 teve peso simbólico. Cria da escola, onde foi rainha de bateria nos anos 2000 antes de seguir carreira consolidada na televisão, Juliana retornou não apenas como nome midiático, mas como parte da memória afetiva da agremiação. Sua presença dialogou diretamente com o enredo em homenagem a Mestre Ciça, já que ela viveu na avenida um dos períodos mais marcantes da bateria. Mais madura, confortável no posto e visivelmente envolvida com a proposta do desfile, Juliana trouxe à Viradouro algo que nem sempre se compra: pertencimento. E isso, na Sapucaí, aparece no canto, na entrega e na conexão com a comunidade.

No fim, a imagem que ficou foi a do próprio Ciça regendo um desfile que narrava sua trajetória — mas sem perder o controle técnico que sempre o caracterizou. Emoção houve, claro. Mas sustentada por uma orquestrada execução.

Título que carrega um marco simbólico

A vitória de 2026 tem fundamento na afirmação de identidade. A escola mostrou maturidade ao celebrar sua própria construção interna e mostrar a importância do legado e da frase "flores em vida".

Num Carnaval que muitas vezes olha para fora — personagens históricos, mitologias, países distantes — a Viradouro olhou para dentro. E encontrou grandeza. Pra cima, Ciça!


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