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Resenha: Força da Juventude -Os Garotin

  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

Os Garotin entregam o disco mais ambicioso do pop/soul brasileiro independente em 2026


por Letícia Pinheiro, editora chefe do Vivendo de Shows


Foto Acervo VDS, por Briel Araújo.
Foto Acervo VDS, por Briel Araújo.

Dois anos depois de apresentarem “Os Garotin de São Gonçalo” ao mapa da música brasileira, o trio retorna com Força da Juventude e deixa claro que o primeiro álbum não foi sorte de estreante. Foi promessa. Este aqui é o cumprimento dela.


Com 13 faixas, interludes espalhados pelo meio do caminho e um elenco de convidados que vai de Lenine a Arthur Verocai, o trio demonstra maturidade suficiente para sustentar um projeto de fôlego sem perder a leveza que os tornou queridinhos.


Faixa a faixa


O disco abre com “Hoje eu vou me dar bem!” no modo que a turma já conhece: batida de boom bap, Cupertino na frente, refrão chiclete costurado com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo. É uma entrada segura — talvez segura demais para quem esperava uma virada imediata, mas funciona como apresentação de intenções.


A segunda faixa, “Se joga” (feat. Marina Sena e BK), é a que vai parar na boca do povo — e eles mesmos disseram isso em entrevista, sem falsa modéstia. Mais pop, mais dançante, a música progride de forma inteligente: começa cadenciada, vai ganhando giro, e Marina Sena entra no refrão como se sempre tivesse estado ali. Depois tem um trecho só dela antes de BK aparecer e fechar o raciocínio. É a faixa mais redonda do álbum, aquela que vai tocar em todo lugar.


Baby não vá” desacelera o ritmo e entra no território do love song — R&B lento, voz em primeiro plano, clima de madrugada. Funciona bem como respiro depois da energia de “Se joga”, e a viradinha no final já adianta o que vem a seguir, mostrando que o álbum foi pensado como sequência, não como coletânea.


Deixa eu te encontrar” (feat. Malia) resgata a vibe do primeiro álbum com uma sensação de déjà vu afetivo. A cantora americana entra bem e agrega uma camada diferente ao som do trio — é a faixa mais nostálgica do disco, quase uma carta para quem acompanha desde o começo.


Soul brasileiro” (feat. Lenine e Hamilton de Holanda) é um momento à parte. O paralelo com “Jack Soul Brasileiro”, do próprio Lenine, não é acidental: é um diálogo aberto, uma ode à latinidade e ao Brasil que funciona como âncora temática do projeto. Hamilton de Holanda no bandolim adiciona uma textura que eleva a faixa para além do featuring bonito — é uma declaração de pertencimento musical.


A faixa-título, “Força da Juventude”, é o manifesto do disco: estar jovem, navegar os percalços do caminho, não deixar o mundo endurecer antes da hora. Tem o tom de hino sem forçar a barra, o que é um acerto.


“Falador” (feat. 2ZDinizz) traz o rapper niteroiense numa parceria que soa natural — e o título já entrega muito sobre as referências que os Garotin buscam. Não é difícil traçar uma linha até “Falador Passa Mal”, clássico dos Originais do Samba de 1973: aquela tradição do samba que transforma o falastrão em personagem cômico e moralista virou matéria-prima pra uma nova camada de significado. Os Garotin seguem mostrando que sabem onde estão pisando — e de onde veio o chão.


Gimme just one night” joga com o charme dos anos 2000 de um jeito que funciona como intermezzo elegante antes da reta final.


Calor e arrepio” e “Simples assim” (feat. Liniker) já eram conhecidas — a primeira circulava solta, a segunda tinha aparecido no Session 2 — e chegam aqui com o contexto que faltava. Liniker, vencedora do Grammy Latino, não precisa de muita apresentação, e a faixa segura bem o peso da parceria.


“Fantástica” chega com uma energia que lembra muito o pop de “Pique Anitta” — é um pico de dancefloor no meio do terceiro ato e deixa aquela sensação de “precisa de clipe pra ontem”.


O disco fecha com “Uma noite só” (feat. Arthur Verocai), e é aqui que Força da Juventude revela sua carta mais preciosa. O cuidado de Verocai com as cordas é uma marca registrada de décadas — arranjador que passou por Gal Costa, Ivan Lins, Jorge Ben Jor e tantos outros, seu álbum solo de 1972 só ganhou o reconhecimento merecido na virada do milênio, quando produtores de hip hop norte-americanos o redescobriram e transformaram em objeto de culto. Ter Verocai assinar os arranjos de cordas da faixa de encerramento não é uma costura geracional que Os Garotin puxam com consciência. A faixa tem uma pegada ao mesmo tempo antiga e atual — dá para sentir o peso da história sem que o disco tropece no peso.



O que amarra o álbum


Os interludes espalhados pelo percurso são um acerto de curadoria. Em vez de um álbum de singles soltos, Os Garotin entregam uma experiência de escuta com começo, meio e fim — algo cada vez mais raro e mais valioso.


A diversidade de convidados poderia fragmentar o projeto, mas o trio funciona como fio condutor em todas as faixas. Eles não desaparecem quando a estrela convidada entra: dividem o palco sem perder o protagonismo.


Força da Juventude confirma que Os Garotin não são um fenômeno de momento. São um projeto com visão de longo prazo, capacidade de dialogar com gerações distintas da música brasileira e, acima de tudo, com algo a dizer. A juventude aqui não é tema: é postura.


Lançamento: 14 de maio de 2026.





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