Reinventar-se é o segredo para a eternidade. A "Ópera Grunkie" de Marina Lima
- 25 de mar.
- 5 min de leitura
Com "Ópera Grunkie", uma das maiores artistas da música brasileira celebra sete décadas de vida e quase cinco de estrada — e prova que vanguarda não tem prazo de validade
por Letícia Pinheiro, para o Vivendo de Shows

Há artistas que marcam uma época. E há artistas que atravessam todas elas. Marina Lima é, sem dúvida, do segundo grupo.
Aos 70 anos, ela lança seu 18º álbum de estúdio — Ópera Grunkie — e entrega ao Brasil uma obra que é, ao mesmo tempo, celebração e manifesto. Uma declaração de que reinventar-se não é apenas possível: é necessário. E que, quando feito com integridade e coragem, é simplesmente espetacular.
Uma trajetória que moldou gerações
Marina Lima chegou à cena musical brasileira nos anos 1980 carregando algo raro: uma identidade inconfundível. Sua voz, seu visual andrógino e sua postura transgressora quebraram padrões numa época em que quebrar padrões tinha um custo real. Ela não apenas aceitou esse custo — ela o transformou em arte.
Com hits que entraram para a alma coletiva do país — Fullgás, Mesmo que Seja Eu, Ainda Bem, Segredo — Marina construiu uma carreira que nunca se contentou com fórmulas. Ela passeou pelo pop, pelo rock, pela MPB, pela eletrônica, sempre com uma sofisticação estética que a colocou décadas à frente do seu tempo.
Sua influência sobre artistas das gerações seguintes é imensurável — e hoje, justo, algumas dessas artistas aparecem ao seu lado neste novo trabalho.
Ópera Grunkie: três atos, um universo

O título já diz muito. Ópera pela grandiosidade da proposta. Grunkie pela tribo — palavra que a própria Marina popularizou para definir pessoas livres, inteligentes, talentosas e corajosas. Esse álbum é para elas. E é, também, uma extensão de tudo que Marina sempre foi.
Dividido em três atos, o disco reúne composições inéditas, colaborações com nomes como Antonio Patriota e uma releitura de Partiu, originalmente lançada no ao vivo No Osso (2015). A produção é dela mesma, em parceria com Arthur Kunz, Edu Martins e Thiago Vivas — um cuidado artesanal que se sente em cada camada do trabalho.
As participações especiais revelam o alcance e o respeito que Marina conquista entre gerações distintas: Adriana Calcanhotto, parceira de longa data da boa música brasileira; Ana Frango Elétrico, uma das vozes mais originais da nova geração; Laura Diaz, da Teto Preto, representando a cena independente contemporânea. E ainda, nas vozes, nomes como Fernanda Montenegro e Mano Brown — uma constelação que só poderia orbitar em torno de alguém como Marina.
Há também beleza na faixa Perda, que apresenta trechos de poemas de Antonio Cicero e reúne o filósofo Fernando Muniz e membros da Academia Brasileira de Letras. E há afeto genuíno em Samba pra diversidade, dedicada a Badsista, Marcelo D2 e Maria Bethânia — uma declaração de amor à pluralidade que sempre foi marca registrada de Marina.
Vanguarda que o tempo não alcança
O que faz de Marina Lima uma artista singular não é apenas o talento — é a coerência. Em mais de quatro décadas de carreira, ela nunca abriu mão de si mesma para ser mais palatável. Nunca diminuiu sua complexidade para caber em um formato. E é exatamente por isso que, aos 70 anos, ela soa mais atual do que nunca.
Ópera Grunkie não é um álbum de nostalgia. É um álbum de presença. De uma mulher que olha para o passado com gratidão e para o futuro com a mesma curiosidade de sempre.
A turnê Marina Lima 70 começa neste fim de semana, em Porto Alegre, passando pelo Rio de Janeiro e São Paulo nos meses seguintes.
À seguir, faixa a faixa comentada por Marina Lima sobre o lançamento:
SOBRE O TÍTULO
“Escolhi ‘Opera grunkie’ para o nome do álbum porque, além dele ter uma estrutura meio de ópera, fala do universo de gente com quem mais gosto de estar. Eu já havia dedicado o filme “Uma garota chamada Marina” (de Candé Salles) aos grunkies: pessoas livres, inteligentes, que não pagam o preço da fama; gente talentosa e corajosa que aceita as diferenças.”
FAIXA A FAIXA

ABERTURA
PARTIU (Marina Lima) “Abrir com esta música é a minha forma de encorajar as pessoas a partirem em busca do seu próprio destino. Com coragem, medo, alegria, esperança e doses de realidade. Com alguns samples de músicos e artistas que admiro, começo a faixa com uma homenagem à origem dos meus pais, aos asiáticos, aos ditados alemães e a graça dos ingleses.”
1º ATO
GRIEF-STRICKEN (Antonio Patriota) PERDA (Arthur Kunz / Felipe Pinheiro de Souza)“‘Grief-stricken’ (de Antonio Patriota) é o momento que escolhi para representar o meu choque, diante da decisão de meu irmão Cicero em partir. Fui pega de surpresa e tomada pela dor. E de uma admiração ainda maior por ele. “Perda” completa este ato. Com a poesia do Cicero dita pelo professor Fernando Muniz e os imortais da ABL, em cima de uma música instrumental do duo paraense Strobo, busquei dar uma dimensão emocionante e eterna da obra do meu irmão.”
MEU POETA (Marina Lima) “É sobre nós dois. Uma declaração de amor ao Cicero, à nossa união, cumplicidade, leveza, ambição e alegria. Juntos.”
2º ATO
UM DIA NA VIDA (Giovanni Bizzotto / Arthur Kunz / Marina Lima / Ana Frango Elétrico)“Recebi do Giovanni e do Arthur a música pronta para colocar letra. Vi que ali estava a oportunidade de ter a Ana Frango comigo, compondo a letra e dando mais bossa ao que já soava irresistível.”
SAMBA PRA DIVERSIDADE (Marina Lima)“É uma homenagem à diversidade do Brasil, e em particular a um desejo meu de fazer um samba bem lento, à la Dorival Caymmi, à la “Samba da Benção”. Sinto que me faltava um samba desses, e ainda com um coro cantando que é devagar que se chega longe.”
OLÍVIA (Marina Lima / Renato Gonçalves / Arthur Kunz)“Fazendo bike, me deparei com uma postagem no Instagram sobre uma macaca chamada Olívia. A tutora dela comentava que Olívia não podia ser contrariada que começava a arrancar a roupa. Ri muito. Peguei este mote e comecei a compor. Chamei Renato e Arthur para criarmos o reggeaton e termos uma base pronta para pirar. Convidamos o ator e músico Pablo Moraes (que vem a ser o inventor da palavra “grunkie”), para criar os diálogos juntos e Fabiana Kherlakian para temperar o molho. Aí vem Késsya Fernandes com a grande deixa. Deu no que deu.”
3º ATO
COLLAB GRUNKIE (Eraldo Palmero / Laura Diaz / Marina Lima / Renato Gonçalves)“Fiz uma chamada aberta online para pessoas enviarem sons ou ideias que pudessem soar interessantes para uma intervenção minha. Entre mais de 800 e-mails recebidos, escolhi a base do Eraldo para criar em cima. Resolvi fazer uma homenagem carinhosa aos grunkies e a partir disso chamei Laura Diaz para embelezar, sensualizar, e abrasileirar a faixa. Renato e eu escolhemos os samples, e termino com um trecho de uma conversa minha no WhatsApp com Fernanda Montenegro, a maior de todas. A tribo dos grunkies é imensa.”
SÓ QUE NÃO (Marina Lima / Giovanni Bizzotto / Adriana Calcanhotto)“Guardei esta canção para uma ocasião especial. A partir de acordes que Giovanni havia me enviado, coloquei novos e vim trabalhando nela, orquestrando a intensidade musical que me instigava e enlouquecia. Chamei Adriana para letrar comigo porque ela vem de uma linhagem parecida com o Cicero: Adriana seria a única pessoa, fora ele, que daria conta do que eu buscava. E o arranjo de cordas(sintetizadores) que o Edu Martins criou arrebatou tudo.”
CHEGA PRA MIM (Marina Lima / Marcio Tinoco)“Esta parceria com Marcio tem alguns anos, é pouco conhecida, mas chegou a ser gravada por Leila Pinheiro. Sempre gostei muito da canção e intuí que Adriana também iria curtir. Não deu outra. Adriana amou e foi uma emoção gravar com ela.”
FINALE
BRAHMA CHOPIN (Marina Lima / Arthur Kunz)“Assim como na abertura, este álbum termina com um tema instrumental meu com viradas e toques do Arthur. Agradeço e proponho seguirmos viagem :)”
Ouça o álbum nas plataformas digitais: https://tratore.ffm.to/marinalimaoperagrunkie

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