“Nas Marés”, de Marcos Braccini, transforma travessias pessoais em experiência musical ao vivo
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Após um longo processo de gestação, álbum ganha forma no palco e revela um artista que transita entre tradição e experimentação sem pressa de se encaixar em rótulos
Por Patricia Burlamaqui, para a Vivendo de Shows.

O lançamento de Nas Marés, novo trabalho do cantor, compositor e arranjador Marcos Braccini, chega ao público como resultado de um percurso pouco linear — e isso se reflete diretamente na experiência do show que acompanha o disco. Mais do que apresentar um repertório, Braccini constrói uma espécie de travessia musical que dialoga com diferentes momentos de sua carreira e com a própria ideia de tempo como matéria artística.
Com mais de duas décadas de atuação, o músico mineiro consolidou uma trajetória marcada pela aproximação entre a canção popular e elementos da música de concerto. Formado em composição pela UFMG e com passagens por instituições internacionais, Braccini já vinha explorando esse território híbrido em trabalhos anteriores, como Noturno (2014) e Wiara (2015). Em Nas Marés, essa investigação ganha novos contornos, menos preocupados em definir fronteiras e mais interessados em tensioná-las.
O show de lançamento reflete esse mesmo espírito. No palco, a formação numerosa — que inclui piano, cordas, sopros e uma base rítmica versátil — cria um ambiente sonoro denso, mas sem perder a delicadeza. Há uma sensação constante de movimento: as músicas não se encerram em si mesmas, parecem se transformar ao longo da execução, como se ainda estivessem em processo.
O público acompanha em silêncio atento, típico de apresentações que exigem escuta mais concentrada. Não se trata de um espetáculo de apelo imediato. Em vez disso, o que se estabelece é uma relação gradual, construída à medida que o repertório avança. Canções autorais dividem espaço com releituras como “Evangelho”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, e “Tempo de Desenredo”, parceria de Antonio Gomes Neto com Sidney Porto.
Nessas escolhas, Braccini evidencia uma intenção de diálogo entre gerações e linguagens.
Um dos momentos mais marcantes do espetáculo acontece justamente na faixa-título, “Nas Marés”, que encerra o disco e o show. Composta há cerca de duas décadas em parceria com Antonio Gomes Neto, a música sintetiza a proposta do trabalho: uma reflexão sobre deslocamento, permanência e transformação. Ao vivo, a canção ganha contornos ainda mais orgânicos, com espaço para nuances interpretativas e pequenas variações que reforçam o caráter vivo do projeto.
Essa organicidade não é casual. O álbum foi gravado ao vivo em estúdio, durante a pandemia, com os músicos tocando simultaneamente, ainda que em salas separadas. O resultado é perceptível no palco: há uma coesão que não parece construída artificialmente, mas fruto de uma escuta coletiva já amadurecida.
Outro aspecto que chama atenção é o diálogo com outras linguagens artísticas. A presença da poesia — seja nas letras, seja em intervenções faladas — reforça o interesse de Braccini em expandir a canção para além da estrutura tradicional. Não por acaso, o artista também mantém produção literária paralela, o que se reflete na densidade textual de suas composições.
Visualmente, o show também dialoga com o conceito do álbum. As imagens projetadas, baseadas na fotografia de Muriel Gani, evocam a ideia de tempo e desgaste, funcionando mais como atmosfera do que como narrativa literal.
Sem recorrer a soluções fáceis ou refrões de assimilação imediata, Nas Marés se posiciona como um trabalho que exige disponibilidade do ouvinte — e, justamente por isso, oferece uma experiência mais duradoura. No palco, essa proposta se confirma: o espetáculo não busca convencer, mas convidar.
Em um cenário musical frequentemente orientado por lançamentos rápidos e consumo fragmentado, o novo projeto de Marcos Braccini segue na contramão. É um trabalho que se constrói devagar, como as próprias marés que o inspiram — avançando e recuando, mas sempre deixando marcas.

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