Entrevista: Camila Rebouças detalha os bastidores da produção executiva do projeto "Chico 2.0"
- há 12 horas
- 5 min de leitura
Em conversa exclusiva para a Vivendo de Shows, produtora com bagagem em arenas globais revela como gerenciou a logística e a curadoria para conectar a obra de Chico Buarque à cultura urbana atual

1. Como surgiu a ideia do “Chico 2.0” e qual foi o maior desafio no papel de produtora executiva para transformar uma ideia dessa dimensão e ambição em realidade?
Resposta: A ideia surgiu com a possibilidade de criar uma ponte entre a genialidade de um dos maiores patrimônios da nossa música e a sonoridade da cultura urbana atual. O conceito do projeto começou com Celso Athayde, Felipe Poeta e Fabio Almeida. Entrei para contribuir e ajudar a transformar essa ambição em operação real. Como produtora executiva, o maior desafio foi a organização e gestão de todo o projeto. Eram muitos artistas, espalhados pelo Brasil, de gêneros musicais e agendas completamente diferentes. Montar essa engrenagem e fazê-la rodar sem perder prazos, qualidade e cuidado com a obra original foi um grande desafio coletivo. Coordenei um time muito competente e comprometido que operou tudo isso em detalhes.
2. Homenagear e revelar a obra de um dos maiores nomes da MPB exige extrema sensibilidade. Como foi o trabalho de curadoria e produção para garantir que a inovação do “2.0” respeitasse a essência das obras originais de Chico Buarque?
Resposta: O primeiro passo foi a escolha das músicas que integram o projeto, o que foi complexo dado repertório do Chico. Depois, ao lado da direção artística, formada por Celso Athayde, Fabio Almeida e Preto Zezé, e dos produtores musicais Alê Siqueira e Felipe Poeta, começamos a pensar qual canção cada artista interpretaria, considerando estilo, complementaridade dos feats, musicalidade e a mensagem por trás de cada faixa. Associar dois produtores musicais de perfis e de “escolas” completamente diferentes também foi fundamental para o sucesso do projeto. São dois talentos únicos, um do eletrônico e outro da MPB, que uniram suas experiências e pontos de vista. Eles tiveram liberdade artística para trabalhar arranjos e bases, mas mantiveram um objetivo definido desde o princípio: fidelidade absoluta às letras e às melodias originais.
3. O projeto reúne diferentes gerações, gêneros e linguagens musicais. Como foi gerenciar a logística, agendas e expectativas de tantos artistas em um único álbum? Como criar um ambiente harmônico nos bastidores?
Resposta: Com tantos artistas convidados, cada um com sua agenda e sua forma de trabalhar, a única forma de dar conta foi definir as bases gerais da produção. A partir delas seguimos um fluxo único e profissional de produção para todos, com comunicação clara e critérios definidos. Isso é algo que trago da minha experiência em festivais com muitos artistas.Dentro dessa mesma estrutura, cada artista foi ouvido e respeitado na sua individualidade e forma de interpretar a obra. Outro ponto importante é que desenhamos o projeto como um trabalho coletivo. Cada voz, cada interpretação, foi igualmente fundamental para o resultado final. A harmonia nos bastidores nasceu dessa escuta.
4. Estive presente na audição do álbum e foi visível o cuidado com a entrega e a experiência de escuta. Como é pensada a estratégia de lançamento e de apresentação do projeto para a imprensa e para o mercado musical?
Resposta: Fico feliz que isso tenha ficado visível, porque foi intencional. Além da produção, tem um outro time gigantesco por trás do lançamento e comunicação do projeto. São profissionais da Universal Music, F Records e Tha House, cada um com seus respectivos núcleos de comunicação, digital e de assessoria de imprensa. Outro trabalho coletivo que foi fundamental para que tivéssemos integração das equipes e alcançássemos o resultado excelente que tivemos tanto na audição quanto no alcance e repercussão do álbum. Decidimos lançar o projeto em duas partes, a primeira em agosto e a segunda em outubro. A ideia é dar um respiro para que cada faixa seja ouvida com a atenção que merece.
5. Você já esteve à frente de grandes operações mundiais, como os festivais Global Citizen, o DVD de Ivete Sangalo no Madison Square Garden e o espetáculo no Carnegie Hall. De que forma essa experiência internacional em grandes arenas influenciou a arquitetura e a execução técnica de “Chico 2.0”?
Resposta: Produções desse porte me ensinaram que a criatividade só vira arte quando existe uma complexa engenharia de produção sustentando tudo, de maneira eficiente e invisível aos olhos do público. No Carnegie Hall, por exemplo, reunimos Alaíde Costa, Seu Jorge, Roberto Menescal, Carlinhos Brown, Celeste, Daniel Jobim e Carol Biazin para celebrar os 60 anos da Bossa Nova, em um dos palcos mais icônicos do mundo. A lição que fica de experiências como essas, assim como do DVD no Madison Square Garden e dos palcos do Global Citizen, é a importância do comprometimento e do entrosamento entre todas as partes. Esse nível de planejamento, capacidade de execução e comunicação entre times foi o que trouxemos para o Chico 2.0, mesmo sendo um álbum de estúdio e não um show ao vivo. A lógica de converter vozes distintas em um resultado único e coeso é o exercício feito em grandes arenas, só que aqui, em vez de um palco, tivemos vários estúdios rodando ao mesmo tempo ao longo dos meses de produção.
6. Para quem vê o resultado final pronto nas plataformas de streaming, muitas vezes a complexidade técnica passa despercebida. Quais foram as maiores "pedras no sapato" ou imprevistos técnicos durante a pré-produção e gravação que o público nem imagina que aconteceram?
Resposta: Sem dúvidas, a logística foi um desafio constante. O projeto foi gravado simultaneamente em três estados diferentes, o que exigiu que os produtores se dividissem para dar conta de tudo ao mesmo tempo. No resultado final, o que fica aparente é a beleza do trabalho artístico, exatamente como deve ser.
7. Além de dirigir a Join Entretenimento, você fundou o Backstage Lab. Como projetos do porte de “Chico 2.0” servem de estudo de caso para a profissionalização do mercado de produção cultural no Brasil?
Resposta: O Backstage LAB nasceu exatamente da constatação de que o mercado de entretenimento brasileiro é riquíssimo em talento e criatividade, mas ainda precisa avançar em capacitação técnica e gestão. O Chico 2.0 é um estudo de caso vivo disso. Um elenco enorme, um time de peso de produção musical e direção artística, um prazo apertadíssimo, que só funciona quando existe uma estrutura profissional unida, com fluxo e responsabilidades bem definidas. Projetos desse nível de complexidade mostram que a produção cultural brasileira, com os recursos humanos, técnicos e financeiros bem geridos, não deixa nada a desejar às produções internacionais. É esse exemplo prático que uso,
inclusive, para formar novos profissionais através do Backstage LAB, mostrando que talento com processo vira arte e legado.
8. Depois de 22 anos de trajetória no entretenimento e com premiações como o Cannes Golden Lion no currículo, qual é o significado pessoal e profissional de assinar a produção executiva de “Chico 2.0” neste momento da sua carreira?
Resposta: Sou fã do Chico desde criança, escutei “Os Saltimbancos” na infância, e nunca imaginei que um dia assinaria a produção executiva de um projeto que rompe barreiras musicais e de gerações em torno da obra dele. Depois de 22 anos de carreira e ter estado à frente de operações com artistas como Madonna, Chris Martin, Anitta, Gilberto Gil, Ivete Sangalo e Seu Jorge, sinto que o Chico 2.0 reúne, em um só projeto, tudo o que quero fazer nessa nova etapa da minha vida. Pensar em projetos de impacto a serviço de uma causa cultural que importa. É a prova de que a experiência acumulada pode e deve ser colocada a serviço de projetos que ampliam o alcance da música brasileira e deixam legado. Pessoalmente, ver meus próprios filhos, de 11 e 14 anos, descobrindo a poesia de Chico Buarque por meio de artistas que eles ouvem no dia a dia é um retorno muito especial.
%20(1).png)



Comentários