Dossiê inédito mapeia o impacto e os desafios das Listas Trans nos festivais brasileiros
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Em entrevista exclusiva ao Vivendo de Shows, a socióloga e pesquisadora Iná Cholodoski apresenta a 3ª edição do Dossiê Listas Trans, analisa as contradições do mercado de entretenimento e reforça que a verdadeira inclusão exige infraestrutura de acolhimento e segurança, não apenas gratuidade
por Letícia Pinheiro, editora chefe do portal Vivendo de Shows

Garantir que a pista de um grande festival de música reflita a pluralidade das ruas é um dos maiores desafios do mercado de entretenimento contemporâneo. O que começou há pouco mais de uma década como um movimento de contracultura para furar bolhas elitizadas hoje ganha contornos de política pública e profissionalização setorial.
Para debater esse cenário, o portal Vivendo de Shows recebeu a socióloga, pesquisadora e mestre de cerimônias Iná Cholodoski. Com uma trajetória de dez anos na articulação de movimentos de inclusão para pessoas trans e travestis, Iná apresentou em primeira mão o “Dossiê Listas Trans: um panorama dos festivais brasileiros de 2025”. O documento, elaborado em parceria com o doutorando em antropologia social Maca Ferro (UFRJ), com apoio de Sol Heringer e Renato de Maria, chega à sua terceira edição mapeando dados de 21 dos 36 festivais nacionais que adotaram políticas de gratuidade.
Na entrevista conduzida por Leticia Pinheiro, a pesquisadora faz um balanço histórico do movimento, aponta casos de sucesso, detalha os entraves logísticos e jurídicos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e faz um chamado urgente: a inclusão real vai muito além da bilheteria. Assista:
Da pista eletrônica aos gigantes internacionais
A engrenagem das chamadas "listas trans" tem raízes fincadas no Nordeste do país. Segundo Iná, o movimento brotou em 2015 em festas independentes de música eletrônica em Pernambuco, motivado pela ausência gritante de corpos trans e travestis naquelas pistas. No circuito dos grandes festivais de música, o pioneirismo coube ao No Ar Coquetel Molotov, que implementou as cotas gratuitas em 2017.
“O relatório de dados é fundamental para pressionar por mudanças, porque a divulgação de números serve como ferramenta de política pública”, pontua Iná.
A prática rapidamente escalou o mapa. Em 2018, chegou ao Festival Saravá (Santa Catarina) e, nos anos seguintes, fincou bandeira em Minas Gerais e São Paulo. O ápice da validação do modelo ocorreu em 2023, quando franquias internacionais de peso que operam no Brasil, como o Primavera Sound e o Afropunk, incorporaram as listas em suas plataformas oficiais de operação.
O princípio do acolhimento: ingressos não bastam
Um dos pontos mais sensíveis tocados pela socióloga é a diferenciação entre o engajamento corporativo genuíno e o marketing performático. Para Iná, a real efetividade de uma ação de diversidade mede-se pela estrutura física e pelo suporte humano oferecidos após a entrega do bracelete de acesso.
Festivais como o Psica (Belém) e o Sensacional (Belo Horizonte) são citados no Dossiê como referências nacionais de excelência. Ambos os eventos estendem a gratuidade para o fornecimento de "auxílio-permanência", garantindo fichas de alimentação e água para pessoas trans em situação de extrema vulnerabilidade social, além de disponibilizarem equipes de psicólogos e tendas dedicadas à redução de danos e saúde mental.
Na frente logística, o Festival Queremos! (Rio de Janeiro) e o Rock the Mountain (Petrópolis) também ganharam destaque positivo. Enquanto o Queremos! demonstrou flexibilidade ao expandir sua cota para quase 400 ingressos de modo a suprir a demanda, o Rock the Mountain se destaca por abrir as inscrições com meses de antecedência.
Esse planejamento prévio permite que o público trans organize transporte de subida da serra e hospedagem com dignidade. Outro bom exemplo paulistano é o Festival Nômade, que destina parte de suas cotas diretamente para a gestão de casas de acolhimento LGBTQIAPN+.
Banheiros, LGPD e as contradições de linha de frente
Apesar dos avanços quantitativos registrados no último ano, a pesquisa expõe barreiras estruturais severas. A principal delas é a infraestrutura física de banheiros. Foi discutido a contradição de festivais que levantam a bandeira da diversidade em suas redes sociais, mas falham em educar suas equipes de segurança terceirizadas ou em sinalizar corretamente banheiros unissex/sem gênero, gerando episódios de violência verbal e constrangimento público para os frequentadores trans.
Na esteira burocrática, as produtoras enfrentam desafios severos de conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A coleta de dados sensíveis (como nome social, RG e CPF) exige plataformas blindadas de tecnologia.
“Problemas logísticos, como a ausência do nome na porta do evento ou a exigência de documentos de última hora, quebram a relação de confiança e criam barreiras que o público lê como falhas de boa-fé”, alerta a pesquisadora, que atua frequentemente como mediadora de crises nos portões de acesso.
O olhar clínico sobre o line-up e o futuro
O Dossiê 2025 também traz uma análise afiada sobre o impacto das leis de incentivo público (como editais master da Petrobras e Natura Musical). As prestações de contas estatais funcionam hoje como o principal motor de profissionalização, obrigando os grandes players do mercado a incluírem metas rígidas de acessibilidade e diversidade para obterem verbas.
No entanto, Iná aponta que essa diversidade ainda não ocupa o topo das estruturas. Existe uma correlação direta: festivais apoiados por verbas públicas e com curadorias progressistas atraem um público trans muito maior e mais confiante para as listas. Porém, no mapeamento de palco, com exceção de superestrelas consolidadas como Liniker, Urias e Cato, a imensa maioria dos artistas trans contratados ainda é alocada em palcos secundários ou em horários periféricos voltados às pistas de música eletrônica.
Para o futuro, o objetivo do Dossiê é cristalino: manter a vigilância ativa de dados e cobrar o mercado por ambientes que sejam, na prática, tão receptivos quanto o discurso dos telões. Ao fim do encontro, Iná deixou um convite reflexivo para todo o público de shows: "Quando você estiver na pista do seu festival favorito, olhe para os lados. A demografia ao seu redor reflete uma diversidade real ou você está cercado por uma bolha?".
Acesse o relatório clicando aqui.
Ficha técnica do relatório:
Título: Dossiê Listas Trans: um panorama dos festivais brasileiros de 2025 (3ª Edição)
Coordenação e Pesquisa: Iná Cholodoski e Maca Ferro (Doutorande em Antropologia Social / UFRJ)
Colaboradores: Sol Heringer (Festival Sensacional) e Renato de Maria (Afropunk Experience MA)
Amostragem: dados coletados através de mais de 20 entrevistas com produtores de 21 festivais do Brasil.
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